Arquivos para Literatura

Le scaphandre et le papillon

«O escafandro e a borboleta(Le scaphandre et le papillon)» é um ótimo livro[também adaptado em um premiado filme(veja trailler abaixo)] escrito pelo jornalista Jean-Dominique Bauby, que era redator chefe da revista Elle francesa, quando aos 43 anos foi vítima de um avc(acidente vascular cerebral).

Como consequência, Bauby desenvolveu uma rara síndrome conhecida como «locked-in», uma paralisia completa do corpo que permitia que ele apenas movimentasse o olho esquerdo. E foi com este mesmo olho que o jornalista pôde «escrever» a história que resultou neste livro, comunicando-se com as médicas e enfermeiras piscando o olho a quantidade de vezes necessária para chegar às letras de um alfabeto adaptado e com isso fugir um pouco de seu «escafandro».

Leia abaixo um trecho do livro:

«O escafandro torna-se menos opressivo e o espírito pode vagabundear. como uma borboleta. Há tanta coisa a fazer. É possível elevar-me no espaço ou no tempo, partir a voar para a Terra do Fogo ou para a corte do rei Midas. É possível ir visitar a mulher amada, deslizar junto dela e acariciar o seu rosto, ainda adormecido. É possível construir castelos no ar, conquistar o Tosão de Ouro, descobrir a Atlântida, realizar os sonhos de criança e os sonhos de adulto.»

Fernando Pessoa: «Livro do Desassossego»

«São as pessoas que habitualmente me cercam, são as almas que, desconhecendo-me, todos os dias me conhecem com o convívio e a fala, que me põem na garganta do espírito o nó salivar do desgosto físico. É a sordidez monótona da sua vida, paralela à exterioridade da minha, é a sua consciência íntima de serem meus semelhantes, que me veste o traje de forçado, me dá a cela de penitenciário, me faz apócrifo e mendigo.»

Fernando Pessoa / Trecho do «Livro do Desassossego»
baixe aqui a versão completa.

Juan Carlos Onetti

Ótimo texto para o Estado de São Paulo, de Eric Nepomuceno sobre um dos maiores escritores de todos os tempos, o uruguaio Juan Carlos Onetti.

Juan Carlos Onetti e a salvação pela escrita
Nascido há 100 anos em Montevidéu, ficcionista é um clássico do continente
por Eric Nepomuceno

“Você é casado com a literatura. Eu, não: ela é minha amante.” A frase, dita por Juan Carlos Onetti a Mario Vargas Llosa, define com precisão o maior autor da literatura uruguaia, que nasceu há 100 anos, em 1º de julho de 1909. Onetti nunca teve método. A sua era uma disciplina singular. Durante um tempo, escreveu a lápis num caderno de capa dura e folhas brancas. Houve períodos de caneta de tinta preta e cadernos de folhas pautadas. E também dos bloquinhos baratos. Sempre à mão. Dizia que a caligrafia é mais lenta que a datilografia, mais lenta que as ideias, e você é obrigado a sentir na mão o peso de cada palavra. Passava por épocas em que anotava frases esparsas que um dia, talvez, se encontrassem e se juntassem. Nessa turbulência estava a sua disciplina: justamente em não haver nenhuma.

Assim ele pôs no papel contos absolutos e romances invulneráveis. Em um desses romances, A Vida Breve, um personagem diz: “Alguma coisa repentina e simples ia acontecer, e eu poderia me salvar escrevendo”. Onetti soube, desde sempre, que coisas simples e repentinas aconteceriam, e que a única salvação seria escrever.

Era um homem alto e espigado, dono de um cinismo a toda prova, de um sarcasmo ácido, de um humor inesperado, de silêncios infinitos. Um pessimista sem remédio. Outro de seus personagens diz: “O mau não é que a vida nos promete coisas que não nos dará nunca; o mau é que sempre as dá, e deixa de dá-las.” Assim de amarga era a sua visão do mundo.

Clique aqui e continue lendo no site do jornal O Estado de São Paulo
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Eric Nepomuceno é escritor e tradutor. Seu último livro é Antologia Pessoal (Record)
fonte: O Estado de São Paulo

Ernesto Sábato

“A vida é tão curta e o ofício de viver tão difícil, que, quando começamos a aprendê-lo, temos de morrer.” - Ernesto Sábato.

Ernesto Sábato, 99

Ernesto Sábato

Matéria da Folha de São Paulo / Folha Online deste domingo. Leia um trecho abaixo ou clique aqui para ler a matéria completa no site da Folha.

Ernesto Sábato é homenageado com documentário e edição crítica de obra
Por Denise Mota

É DOMINGO, A FAMÍLIA está reunida na biblioteca –ponto de encontro doméstico tradicionalmente escolhido para jogar conversa fora–, mas ainda falta o integrante mais ilustre do clã: Ernesto. A inquietação cresce. Subitamente a porta do corredor se abre, e surge um homem idoso, que caminha maquinal, em passadas rígidas e sincopadas, até o outro lado da casa, sem olhar ao redor, sem emitir palavra.

Segundos depois, corre no encalço de Ernesto uma menina pequena, aos gritos de “Vem cá, robô!”. Ali, Ernesto Sábato, 99, não era tanto o romancista de “Sobre Heróis e Tumbas” (trad. Rosa Freire d’Aguiar, Companhia das Letras), Prêmio Cervantes de 1984, mas, simples e definitivamente, um avô.

Como muitas outras histórias da vida íntima de Sábato, também ensaísta e físico, essa passagem de sua existência é contada por seu filho, Mario Sabato, diretor de “Ernesto Sábato, Mi Padre”, documentário recentemente lançado na Argentina sobre seu maior escritor vivo. Como diz o diretor, “não é um filme para historiadores, estudantes de letras, acadêmicos”, mas um retrato íntimo, urdido entre quatro paredes, do “homem por trás do bronze”, como afirma Mario à Folha.

Aos 65 anos, diretor de cinema e televisão, Mario Sabato tem 15 filmes em seu currículo, alguns deles baseados na obra do pai, como de “El Poder de las Tinieblas” (1979), que tem como ponto de partida o “Informe sobre Cegos”, ou “El Nacimiento de un Libro” (1963), curta-metragem que dirigiu aos 18 anos, sobre o processo de criação de “Sobre Heróis e Tumbas” (1961).

Clique aqui e continue lendo no Ilustríssima, da Folha de São Paulo.

José Saramago fala sobre a religião

Sabatina da Folha de São Paulo com José Saramago(Azinhaga, Golegã, 16 de Novembro de 1922 — Tías, Lanzarote, 18 de Junho de 2010), momento em que o escritor responde uma pergunta sobre religião.

Podcast - Moacyr Scliar: Saramago representa um triunfo para a língua portuguesa

Podcast de Moacyr Scliar para a Folha de São Paulo, falando sobre o escritor José Saramago.

 

Cidadãos, não clientes

Nós estamos a assistir ao que chamaria de morte do cidadão e, no seu lugar, o que temos, e cada vez mais, é o cliente. Agora já ninguém te pergunta o que pensas, agora perguntam-te que marca de carro, de roupa, de gravata tens, quanto ganhas…

José Saramago - El Mundo, Madrid, 6 de Dezembro de 1998 - Outros cadernos de Saramago

José Saramago em Janela da Alma

RIP José Saramago

“Todos sabemos que cada dia que nasce é o primeiro para uns e será o último para outros e que, para a maioria, é so um dia mais”

Mostra Mario Vargas Llosa

Matéria do DN Cartaz

Mario Vargas Llosa inaugura mostra sobre a sua vida e obra

O escritor peruano Mario Vargas Llosa inaugurou quinta-feira, na Feira Internacional do Livro de Guadalajara (FIL), a mostra “A liberdade e a vida”, que reconstitui a sua trajectória e o próprio encara como um monumento ao seu passado.

“Tenho a sensação de que é uma espécie de monumento ao que fui. Prescinde-se do que sou”, observou o autor de “Conversa na catedral”.

A mostra, agora apresentada pela primeira vez fora do Peru, por onde viajou durante três meses, desde Agosto, está instalada no Instituto Cultural Cabañas de Guadalajara (ICC), um antigo hospício, decorado com murais de José Clemente Orozco.

O ICC foi sede da cimeira tripartida que este ano reuniu o México, Estados Unidos e Canadá e contou com a presença dos seus respectivos presidentes, Felipe Calderón, Barack Obama e Stephen Harper.

“Tinha vagamente a ideia de que estas coisas se faziam quando os escritores morriam, não quando estavam vivos”, disse Vargas Llosa sobre a exposição, que será acompanhada de um livro com chancela da Planeta e que o escritor apresentará na FIL.

“Isto foi feito sem intervenção minha - esclareceu - Abri a minha casa, os meus arquivos, o meu escritório, mas não tive qualquer intervenção. Se o tivesse feito, teria aplicado uma censura muito rigorosa a alguns textos, para os quais peço indulgência. Que a ninguém ocorra ler os meus poemas de infância…”.

A mostra inclui ainda as notas da escola primária de Llosa, a sua máquina de escrever, as revistas onde trabalhou como jornalista, os seus livros.

Na visita que efectuou, o escritor prestou especial atenção aos monitores de televisão que o mostravam noutras épocas e lugares, não esquecendo a sua candidatura à presidência do Peru.

“É impossível - comentou - não sentir nostalgia quando vemos a nossa vida transformada em imagens, tudo o que se vai deixando para trás e o pouco que vai chegando pela frente”.

“Embora tenha feito muitas coisas na vida - o jornalismo, a política, o muito que viajei - o principal, aquilo que nunca atraiçoei, foi a literatura. O importante, o fundamental, é o que escrevi”, salientou.

Esta foi a terceira vez que Vargas Llosa visitou a FIL, o mais importante evento editorial do mundo hispânico, com cerca de 2000 editores e 500 autores na edição deste ano, a vigésima terceira.

fonte: DN Cartaz

Entrevista: Juan Carlos Onetti

Ótima entrevista com o escritor uruguaio Juan Carlos Onetti(Montevidéu, 1º de julho de 1909 — 30 de maio de 1994), feita pelo site Club Cultura e traduzido pelo site Revista Bula. Leia abaixo.

Juan Carlos Onetti
Fotografia: Onetti.net

Sei armar bem as coisas, não tenho a culpa de que outros as armem mal. A única diferença é essa. Deus me fez assim, só me resta cumprir. A lenda, no fundamental: calúnias. Ignorância, desconhecimento dos fatos. E eu continuo vivendo e a lenda cresce. A cada dia sou mais mau

A peculiaridade e a importância da obra do uruguaio Juan Carlos Onetti só foram tardiamente reconhecidas. Seus personagens complexos, sob o signo do inconformismo e do desencanto, transitam pelo espaço mítico da fictícia cidade de Santa Maria. Com uma visão de mundo tão lúcida quanto corrosiva, Onetti, dizia encontrar seus temas em ’sonhos diurnos’, através de um ‘impulso onírico’. O reconhecimento do significado de sua obra de fato só veio após 1960. Mesmo assim, sua diferença em relação aos escritores do boom era patente. Em Onetti nunca houve qualquer preocupação com cor local e a influência de Faulkner, Céline e Borges deixava-o distante da magia e da fabulação. Republicamos nesta edição uma entrevista rara: a entrevista das entrevistas, uma reunião de trechos de entrevistas de Juan Carlos Onetti publicadas entre 1960 e 1973. Onetti morreu em 30 de Maio de 1994.

Qual a função que desempenha o intelectual em nossa sociedade e quais são as atividades que segundo você lhe correspondem?
Não desempenha nenhuma tarefa de importância social. Corresponde-lhe ter talento.

Que medidas concretas pensa o senhor serem necessárias para manter viva a comunicação escritor-público?
Prazer reiterar: que o escritor tenha talento.

Como, em sua opinião, deve expressar-se o chamado “compromisso dos escritores”?
Trata-se de responder a um interrogatório organizado por um jornal comunista. Diverte-me pensar que talvez não tenham encontrado melhor subscrito apresentar os achaques de um pequeno escritor burguês e decadente. Alguém inventou o termo e o destino do escritor comprometido. Sou inocente. O único compromisso que aceito é a persistência de tratar de escrever bem e melhor e de encontrar com sinceridade como é a vida que me coube conhecer e como são as pessoas condenadas a converter-se em personagens de meus livros..

É vigente a solidão do escritor ou haveria de modificar-se o conceito na atualidade?
Se a solidão significa o que eu entendo, respondo “vigentísima”. Para todo ser humano, seja escritor ou não. Em caso contrário, ligo-me espiritualmente aos círculos, às mesas redondas e aos torneios com flores naturais.

Se você estivesse em meu lugar reportando-se a Onetti, o que perguntaria sobre a literatura uruguaia?
Uma monstruosidade.

E o que você responderia?
Que não é elegante falar dos colegas.
Não me imagino o protagonista de uma lenda negra respondendo a isso.
Aí está o erro, não tenho nada a ver com essa lenda.

Como? Então você não é o laboratorista que toma a gente como porquinha das Índias? Uma espécie de experimentador sem escrúpulos, um corcunda a quem imputam as piores maldades?
Não, não o sou. Nem sequer sou o alcoólatra mulherengo do qual fala o capítulo segundo da lenda.

No entanto, casou-se quatro vezes e, desde que cheguei, tomou seus bons quatro copos de vinho.
Somente com vinho se pode agüentar as reportagens.
Relativamente à minha paixão por experimentar, não passa da quota normal. Você mesma tem querido me enfrentar ou outro autor nacional para divertir-se.

Parece-lhe comparável? Eu o tenho visto reunir ex-amantes cada um com seus novos amores para observar suas reações. Tudo com a expressão mais inocente.
Tenho eu a culpa de ser um mestre? Sei armar bem as coisas, não tenho a culpa de que outros as armem mal. A única diferença é essa. Não sou culpado, senhora, não sou. Deus me fez assim, só me resta cumprir. A lenda, no fundamental: calúnias. Ignorância, desconhecimento dos fatos. E eu continuo vivendo e a lenda cresce. A cada dia sou mais mau..

Você não acredita que a lenda tem um bom pé em sua literatura?
Não, minha literatura é uma literatura de bondade. Quem não o vê é um burro..

Por que escreve?
Escrevo para mim. Para meu prazer. Para meu vício. Para minha doce condenação.

Como escreve?
Estupendamente.

Fale com sinceridade.
Sim, senhora. Não entendi a pergunta..

Bem, quero dizer se escreve com um plano elaborado previamente. Se sabe, exatamente, onde vai chegar?
Sei o que se vai passar. Não sei como vai acontecer. Se soubesse, não escreveria.

Quer dizer que verdadeiramente escreve para você? Que em uma ilha deserta escreveria?
Escreveria.

Considera que seus críticos não o interpretam corretamente?
Se por “interpretação correta” você entende “interpretação total”, digo-lhe que isso não pode acontecer nunca. Nem sequer no amor. Além disso, os críticos que me importam sabem muito mais de literatura do que eu.

Havia pensado em perguntar-lhe algo tão pouco íntimo como sua posição frente à literatura comprometida.
A isso, acaba de inventar..

Assim vale a pena que me responda.
Acredito que não haja maior compromisso que o que se aceita tacitamente quando se põe a trabalhar ou a brincar. É um compromisso consigo próprio. Trata-se sempre de escrever o melhor que seja possível; com total sinceridade, sem pensar nunca nos hipotéticos fulanos que vão nos ler.

Se é assim, por que no prólogo da primeira edição de “Para Esta Noite” você fala de “participar”, “participar em dores e angústias”, como se nesse livro em particular, não nos outros, você estivesse tomando posição frente a um conflito exterior, como se estivesse aceitando um compromisso, buscando deliberadamente uma participação?
O feito de que fale expressamente de compromisso nesse prólogo não modifica as coisas. Em tudo o que escrevi tenho participado. Somente os escritores ruins crêem que tal compromisso deve ser expressamente político.

Sartre, por exemplo….?
Qual é o compromisso político de Sartre na melhor de suas novelas, “A Náusea”?

Bom, eu creio que você se nega ao mundo. E sua literatura é um reflexo muito claro de sua forma de vida… suas personagens desconectadas da realidade, movendo-se num mundo distorcido…
Primeiro teria que perguntar-lhe por que crê que “sua realidade” é “a realidade”. Meus personagens estão desconectados da realidade de você, não da realidade deles. Quanto ao mundo distorcido, concordo. Porém… ou alguém distorce o mundo para poder expressar-se ou faz jornalismo, reportagens….más novelas fotográficas.

Identifica-se com o protagonista de “El pozo” quando este dizia: “Sou um homem solitário que fuma num lugar qualquer da cidade”?
Sim, com este e com muitos outros protagonistas. Já não lhe contaram que a arte é uma eterna confissão?

Continua sendo esse solitário?
Como todo mundo. A diferença está em que alguns se dão conta e outros se distraem.

Tem alguma idéia de por que seus atos são tão pouco compreendidos ou aceitos pelas outras pessoas?
A chave pode estar em que sempre digo o que penso e faço o que quero… Não falemos do resto. Conheço pessoas que me aceita e me compreendem. Com elas vivo.

Suas novelas são sempre impecáveis, laboriosas crônicas do fracasso. Quer aventurar uma explicação?
Em mim, acredito que se trata de um pessimismo natural; natural e radical. No fundo, creio que sou uma das poucas pessoas que crêem na mortalidade. Isso influi muito. Sei que tudo vai se acabar em fracasso. Eu mesmo. Vocês também. De todos os escritores do boom se há dito que são pessimistas, que neles os personagens sempre se frustram. Talvez. Porém em García Márquez ou em Vargas Llosa, eu não percebo uma grande alegria de viver. Sinceramente, não creio que vejam a morte como um problema. E não se trata de que agora eu tenha 64 anos e que possa morrer esta noite. Não. É algo que tenho sentido desde a adolescência. Assim como se descobre que eu sou eu, assim se descobre a morte, marcam-se os limites. Um dos descobrimentos mais terríveis, o mais terrível, que tive ainda adolescente, foi que todas as pessoas que eu amava iam morrer algum dia. Isso me parecia absurdo, e dessa impressão não me refiz ainda.

E o suicídio, Onetti?
Em todas minhas novelas está subjacente a idéia do suicídio. Uma vez me perguntaram isto que você acaba de perguntar, por que havia abandonado a idéia do suicídio. Eu lhe disse que fizesse primeiro a prova, e depois me contasse. Quero saber antes se é melhor que tudo isto.

Nunca se perdeu em Santa Maria? Nunca fez planos nem genealogias?
Uma vez fiz um plano de Santa Maria com um amigo, porém era só para movimentar melhor os personagens. Eu o perdi quando me mudei de Buenos Aires. A mim, se me ocorre escrever um livro, já tem seu lugar em Santa Maria. Porém nunca me propus desenvolver um plano. Ou seja: nunca quis escrever uma saga. Esse é já um propósito, e eu não poderia escrever com propósitos.

E por que escreve?
Porque sim, porque gosto de contar histórias.

Quando nasceu essa vocação?
Não sei. Talvez na infância ou na adolescência, seguramente uma reação ao mundo dos adultos. Por exemplo: aqui ouço falar várias horas diárias sobre futebol. Então escrevendo me divorcio dessa realidade. Mais que sofrê-la eu, sofrem-na as personagens.

Sofrem-na por você.
Quiçá.

Você foi valorizado pelo surgimento do “boom”, ao qual se incorporou um pouco tardiamente, pois seu primeiro livro é de 1939. Durante esse tempo, quase sem leitores, para quem escreveu? Dito de outra maneira: necessita de leitores? Para quem escreve?
Respondo-lhe com o que uma vez Joyce respondeu a alguém que o entrevistava. Sento-me no extremo de uma mesa, dizia, e escrevo à pessoa que está no outro extremo. No outro extremo está James Joyce.

Viveria em Santa Maria, se pudesse?
Santa Maria não existe além de meus livros. Se existisse realmente, se pudesse viver ou vivesse lá, inventaria uma cidade que se chamasse Montevidéu.

Fonte: http://www.clubcultura.com e Revista Bula
Traduzido especialmente para Revista Bula por Jádson Barros Neves

J.D. Salinger

A agência de notícias Associated Press informou hoje que J.D. Salinger, autor de “O apanhador no campo de centeio”, morreu de causas naturais aos 91 anos. Depois de seu «auge» na literatura, o escritor teve uma vida reclusa por mais de 40 anos. Para saber mais sobre o assunto, leia o trecho do texto que saiu no jornal O Estado de São Paulo no dia 08 de Janeiro de 2009.

O longo silêncio de J.D. Salinger
Autor do clássico Apanhador no Campo de Centeio completou 90 anos no dia 1.º e há 40 vive recluso
| Caderno 2, traduzido por Anna Maria Capovilla |

No primeiro dia do ano, J.D. Salinger completou 90 anos. Provavelmente não houve comemorações, ou se houve, nunca saberemos. Há mais de 50 anos, Salinger vive recluso na cidadezinha de Cornish, North Hampshire. Por algum tempo, jornais e revistas mantiveram o hábito de enviar repórteres para Cornish na esperança de ver, ou pelo menos obter uma frase de um habitante dado a conversar, mas Salinger não é fotografado há décadas e os vizinhos nunca fizeram o menor comentário. Ele leva uma vida tão fechada, que Thomas Pynchon pareceria um parlapatão em comparação.

Na realidade, o desaparecimento de Salinger do cenário mundial foi tão perfeito que talvez seja difícil para os leitores que não são de meia-idade se darem conta da sensação que ele causou no seu tempo. Com a primeira sentença, o romance The Catcher in the Rye (Apanhador no Campo de Centeio) publicado em 1951, introduzia uma voz completamente nova na escritura americana, e rapidamente se tornou um livro cult, um ritual de passagem para os intelectuais e os desiludidos. Nine Stories, publicado dois anos mais tarde, fez de Salinger o escritor favorito da crítica, ao desmontar a tradicional arquitetura do conto, substituindo-a por outra na qual um conto podia acrescentar uma mínima mudança de humor ou de tom.

No entanto, na década de 60, no auge da fama, a voz de Salinger se calou. Franny and Zooey, uma coletânea de dois contos longos sobre a família Glass, de ficção, saiu em 1961; outros dois contos longos sobre os Glass, Raise High the Roof Beam, Carpenters (que no Brasil virou Pra Cima com a Viga, Moçada) e Seymour: An Introduction, saíram juntos em um livro em 1963. A última obra impressa de Salinger foi Hapworth 16, 1924, um conto que tomou quase toda a edição de 19 de junho de 1965, do The New Yorker. Na década de 70, ele parou de dar entrevistas, e no final da de 80 recorreu à Suprema Corte para impedir o crítico inglês, Ian Hamilton, de citar suas cartas em uma biografia.

Então, o que fez Salinger nos últimos 40 anos? A indagação tornou-se uma verdadeira obsessão para os especialistas neste autor, ainda bastante numerosos, e a seu respeito foram elaborados todos os tipos de teorias. Ele não escreveu mais nenhuma palavra. Ou escreveu o tempo todo e, como Gogol no fim da vida, queimou os manuscritos. Ou então guardou inúmeros volumes que aguardam a publicação póstuma.

Joyce Maynard, que viveu com Salinger no início da década de 70, escreveu em um livro de memórias de 1998 que viu prateleiras cheias de cadernos dedicados à família Glass e achava que havia pelo menos dois novos romances trancados em um cofre.

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Literatura - Diários de Bicicleta, David Byrne

Diários de Bicicleta

Numa época em que grandes cidades não suportam mais veículos motorizados, e o planeta, a poluição gerada por eles, o líder dos Talking Heads e «multiartista» David Byrne lançou um livro que vem bem a calhar: «Diários de Bicicleta». O livro é a experiência sobre duas rodas de Byrne, que com sua bicicleta, conseguiu conhecer melhor cidades como Berlim, Buenos Aires, São Francisco, Manila, Istambul, entre outras, ampliando a percepção dos ritmos e características de cada uma delas.

José Saramgo x António Lobo

Matéria muito interessante que saiu na revista Bravo, sobre a rivalidade entre os escritores portugueses contemporâneos de maior sucesso: José Saramago x António Lobo. Leia abaixo um trecho, para a matéria completa, clique aqui e acesse o site da Revista Bravo online.

José Saramago e António Lobo Antunes - O Fla-Flu dos Romancistas
Rivais, os escritores portugueses José Saramago e António Lobo Antunes mobilizam partidários apaixonados e protagonizam uma disputa que envolve vida pessoal e literatura
Por Anna Carolina Mello

A rivalidade não é tão agressiva quanto a que se deu quando o escritor peruano Mario Vargas Llosa descobriu que sua mulher se envolvera com o ex-amigo Gabriel García Márquez; nem tão ressentida quanto aquela que o britânico Martin Amis provocou ao passar para trás a mulher do colega Julian Barnes, contratando outro agente literário. A rixa entre os portugueses José Saramago e António Lobo Antunes não teve vexame ou dissolução de amizade. Mas há algo que a torna especialmente divertida: mesmo sem um motivo aparente para existir, ela mobiliza partidários apaixonados dos dois lados. Comparam-se as obras, medem-se os prêmios e até as vidas pessoais de ambos entram no escrutínio dessa disputa. Nesse embate, sobram palavras e apreciações pouco agradáveis.

Recentemente, ambos despertaram os ânimos de suas respectivas torcidas com lançamentos quase simultâneos: Saramago, com Caim; Lobo Antunes, com Que Cavalos São Aqueles que Fazem Sombra no Mar?. Eles não se evitam na vida civil, como os citados acima, mas também não fazem questão de disfarçar a hostilidade. Em 1998, Lobo Antunes e seus partidários receberam o mais duro dos golpes: o Nobel de Literatura concedido a Saramago - o primeiro e provavelmente durante muito tempo único entre escritores de língua portuguesa. Na ocasião, um jornalista do The New York Times ligou para Lobo Antunes atrás, naturalmente, de declarações ácidas. Informado do ocorrido, Lobo Antunes silenciou por alguns segundos do outro lado da linha. Depois, fez-se de desentendido e, dizendo que a ligação estava ruim e que mal podia ouvir, desligou.

Nessa época, Saramago já era bastante festejado no Brasil, com romances como Memorial do Convento (1982) e Ensaio Sobre a Cegueira (1995). Lobo Antunes, ao contrário, era praticamente um desconhecido, com poucos e mal-vendidos livros, entre eles Os Cus de Judas (1979) e Manual dos Inquisidores (1996). Em 2000, durante a feira de livros de Frankfurt - em que são fechados os principais contratos de publicação do mundo - Lobo Antunes rejeitou um pedido de entrevista feita pelo jornal Folha de S.Paulo. “Deixem o Brasil para o Saramago. É o único lugar que ele tem”, disparou. No ano passado, durante a Festa Literária Internacional de Paraty, voltou ao tema de forma mais bem-humorada. “Vocês gostam mais do outro”, brincou com o público.

Saramago, por seu turno, já disse que não conhece “esse sujeito” e que “não se interessa por ele”. Em 1998, presenteado com um livro do oponente por um jornalista do tabloide português Tal & Qual, o escritor fechou a cara e devolveu o livro, porque acreditava ser uma provocação. A versão fantasiosa do fato, contudo, atiçou os ânimos: dizia-se que o autor havia jogado o exemplar no chão, por conta do título da reportagem - Atirado ao Chão -, que brincava com o nome do romance de Saramago, Levantado do Chão (1980).

À parte as fofocas, existe a divisão literária. Nas páginas a seguir, os jornalistas e críticos José Castello e Paulo Polzonoff Jr., que no Brasil ocupam lados opostos nesse ringue, defendem cada um a obra de sua preferência. Apaixonada mas civilizadamente - sem vexame nem dissolução de amizade.

Exposição lembra 30 anos da morte de Clarice Lispector

“Um painel com duas mil gavetas esconde em 65 delas trechos da vida da escritora. Também é possível encontrar o sofá onde Clarice datilografava. E uma sala de espelhos mostra a sua trajetória.”


Fonte: Globo.com

Evolução das garrafas da Coca-Cola

O blog de embalagens TheDieline publicou um post muito interessante sobre a evolução no design das curvas das garrafas da Coca-Cola.

Coca Cola alumínio

Para acessar, clique aqui.

Clarice Lispector - Infelicidade Inspiradora

Trecho do texto sobre a escritora Clarice Lispector, do site da revista Bravo. Para ler a matéria completa, clique no link ao final do texto.

Clarice Lispector - Infelicidade Inspiradora

Clarice Lispector amou o romancista Lúcio Cardoso, homossexual, e o cronista Paulo Mendes Campos, que era casado. As paixões impossíveis alimentaram sua literatura - e ela não foi a única escritora a se nutrir do fracasso amoroso
Por José Castello

A paixão alimenta a literatura ou a enfraquece? Amar leva a escrever ou a calar? Clarice - A Vida de Clarice Lispector, biografia do jornalista norte-americano Benjamin Moser - que chega neste mês ao Brasil com o status de ser a mais completa sobre a autora de Laços de Família e Felicidade Clandestina ?, sugere que, mesmo quando o amor é impossível, ele estimula a escrita. Mesmo fracassado, um amor pode ajudar a escrever.

Casada entre 1943 e 1959 com o diplomata Maury Gurgel Valente, Clarice nunca escondeu que se sentia sufocada pela vida conjugal. “Nada tenho feito, nem lido, nem nada. Sou inteiramente Clarice Gurgel Valente”, escreveu em uma carta datada de 1944. Se o casamento com Maury “deu certo” - gerou dois filhos e perdurou por 16 anos - a paixão pelo romancista mineiro Lúcio Cardoso foi muito mais importante para sua escrita, mesmo “dando errado”.

Quando se conheceram, em 1940, Clarice tinha 20 anos, e Lúcio - brilhante e sedutor -, 28. Mas era um amor impossível: Lúcio era um homossexual assumido. Havia, porém, lembra Moser, um segundo impedimento: os dois eram “parecidos demais”. Mesmo assim, especula Moser, foi esse amor não correspondido que levou Clarice a cultivar a solidão - condição essencial para a escrita. Mais que isso: foi o fracasso no amor que a empurrou para a literatura. Por meio de Lúcio, ela passou a frequentar as rodas literárias do “grupo introspectivo”, que se reunia no Bar Recreio, no Rio de Janeiro. Chegou, assim, à poesia metafísica de Augusto Frederico Schmidt e encontrou sua ascendência “mística” em Cornélio Penna e Octavio de Faria, essenciais para a sua obra. Foi Lúcio Cardoso quem sugeriu o título de seu primeiro romance, Perto do Coração Selvagem (1943). Foi ele, ainda, quem lhe mostrou que as anotações dispersas, que ela tomava às tontas e pareciam incoerentes, eram, na verdade, o seu método.

Nos anos 60, Clarice Lispector se aproximou de outro escritor: o cronista e poeta mineiro Paulo Mendes Campos. Desde 1959 estava separada de Maury, com quem tinha morado na Itália, Suíça e Estados Unidos. Em junho daquele ano, regressou com os dois filhos ao Brasil, apostando novamente na solidão. Em 1962, porém, envolveu-se com Paulo.

Diz Moser, com astúcia, que ele foi uma “versão heterossexual” de Lúcio Cardoso. Ambos eram mineiros, católicos, talentosos e sedutores. Eram também perdulários, boêmios e alcoólatras. Como Lúcio, Paulo exerceu uma forte influência intelectual sobre Clarice. Mas era outro amor impossível: ele era casado. Mesmo assim os dois viveram uma paixão secreta. Vínculos invisíveis os ligavam. O jornalista Ivan Lessa assim resumiu: “Em matéria de neurose, nasceram um para o outro”. Clarice tentava ser discreta, mas não continha a ansiedade. Intimado pela mulher, Paulo partiu com a família para Londres. Moser avalia que o fim do romance isolou Clarice do meio literário e, de um modo mais geral, do “mundo adulto”, com o qual ela teve sempre laços muito frágeis. Ela o amou até o fim de seus dias.

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fonte: Revista Bravo online

Poesia: Embriaguem-se, Charles Baudelaire

Baudelaire Charles

É preciso estar sempre embriagado. Aí está: eis a única questão. Para não sentirem o fardo horrível do Tempo que verga e inclina para a terra, é preciso que se embriaguem sem descanso.

Com quê? Com vinho, poesia ou virtude, a escolher. Mas embriaguem-se.

E se, porventura, nos degraus de um palácio, sobre a relva verde de um fosso, na solidão morna do quarto, a embriaguez diminuir ou desaparecer quando você acordar, pergunte ao vento, à vaga, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo que flui, a tudo que geme, a tudo que gira, a tudo que canta, a tudo que fala, pergunte que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, o pássaro, o relógio responderão: “É hora de embriagar-se! Para não serem os escravos martirizados do Tempo, embriaguem-se; embriaguem-se sem descanso”. Com vinho, poesia ou virtude, a escolher.

Fonte: Pensador
Mais poesias: http://www.citador.pt/poemas.php?poemas=Charles_Baudelaire&op=7&author=45

Design Portfolio: Erola Boix

Alguns ótimos trabalhos do designer espanhol Erola Boix. São projetos impressos, identidades visuais, embalagens e internet. Veja abaixo ou acesse o site do designer clicando aqui.






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